Um levantamento do Observatório de Oncologia mostrou que o câncer já é a principal causa de morte em cerca de 670 municípios brasileiros. Isso significa que em 12% das cidades do país, a doença supera enfermidades historicamente mais letais, como os problemas cardiovasculares. E tudo indica que esse número continuará crescendo. Para se ter uma ideia, em 2015, esse número era de 516 municípios, e em 2020, de 606 — um crescimento acumulado de 30% em oito anos.
Esse cenário não se explica apenas pelo envelhecimento da população ou pelo avanço natural das doenças crônicas. Ele reflete transformações aceleradas nos hábitos de vida dos brasileiros. O país vive uma epidemia de sobrepeso e obesidade, que já atinge mais da metade da população adulta.
A alimentação baseada em produtos ultraprocessados tornou-se comum, muitas vezes por ser mais barata e prática do que opções saudáveis. O sedentarismo também aumenta, impulsionado por longas jornadas de trabalho, deslocamentos extensos e a digitalização da rotina. O consumo de álcool segue elevado e o tabagismo, embora tenha diminuído nas últimas décadas, permanece como fator de risco importante em diversas regiões.
A modernidade trouxe avanços, mas também estimulou comportamentos que favorecem processos inflamatórios e metabólicos associados a diferentes tipos de câncer. E o impacto já não se restringe a idosos, O número de diagnósticos em adultos jovens é crescente, em grande parte influenciados por padrões alimentares inadequados, noites insuficientes de sono, estresse crônico e menor exposição a ambientes saudáveis. É um fenômeno mundial, que se replica no Brasil.
Diante desse panorama, fortalecer programas de rastreamento e diagnóstico precoce torna-se uma medida urgente. Tumores como mama, próstata, pulmão, cólon e reto e colo do útero têm altas chances de cura quando identificados no início. Porém, ainda convivemos com barreiras de acesso, desigualdades regionais e baixa adesão a exames preventivos. A lógica é simples: quanto mais tarde o diagnóstico, maior a complexidade do tratamento e menor a probabilidade de bom desfecho.
Além disso, precisamos discutir soluções para melhorar o acesso da população a tratamentos mais eficientes. Esse é um desafio histórico, agravado pela limitação de financiamento. O cobertor é curto, mas criatividade, boa gestão e vontade política permitem abrir caminhos. Nesse ponto, a pesquisa clínica é uma aliada essencial. Incentivá-la significa trazer inovação ao país, capacitar equipes de saúde, ampliar o acesso dos pacientes a terapias modernas e acelerar o desenvolvimento científico nacional. Cada estudo clínico realizado no Brasil oferece benefícios diretos aos participantes e indiretos a toda a sociedade ao fortalecer nossa capacidade de cuidar.
Os dados sobre a mortalidade por câncer mostram que não podemos continuar no mesmo ritmo. Reduzir a exposição aos fatores de risco, aumentar a cobertura vacinal, melhorar o diagnóstico precoce, ampliar o acesso a tratamentos modernos e fomentar a pesquisa clínica são pilares que precisam caminhar juntos. Se colocarmos a saúde no centro das prioridades, o Brasil tem condições reais de mudar essa curva.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
Fonte: Projeto AMIGOS, com informações da Forbes
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